Jogo Perigoso

Em produção da Netflix, Flanagan mostra mais uma vez seu talento para o horror

Sergio Alpendre, editado por Liliane Nakagawa 10/04/2020 02h30
Jogo Perigoso
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Mike Flanagan é um dos nomes mais interessantes do horror cinematográfico no século 21. Sua obsessão é lidar com os códigos do gênero até o ponto em que viram clichês, e driblá-los de alguma forma tão sutil que por vezes a execução falha. Invariavelmente, contudo, aplaudimos o risco e entendemos que os equívocos tendem a se tornar menores perto dos acertos.


Assim é "O Sono da Morte" (2016), seu melhor longa. Assim é "Hush: A Morte Ouve" (2016), sobre o qual escrevi recentemente. E assim é este eficiente "Jogo Perigoso" (2017), produzido pela Netflix e baseado em um romance de Stephen King. Para não falar dos longas que o revelaram, "Absentia" (2011) e "O Espelho" (2013). Sempre trabalhando no limite da farsa, sempre a um passo de naufragar num mar de clichês. Quem sobrevive a esses riscos geralmente faz bons filmes.

"Jogo Perigoso" nos apresenta Jessie (Carla Gugino), mulher madura, que aceita ir a uma casa afastada para tentar salvar seu casamento com o rico Gerald (Bruce Greenwood), entrando para isso em jogos eróticos.

Na primeira noite, Gerald algema as duas mãos de Jessie na cabeceira da cama e tenta algo mais agressivo. Com a inesperada (para ele) recusa dela, inicia-se uma discussão. Gerald não aguenta a tensão e tem um infarto fulminante, antes de soltá-la. Jessie passa então a pensar em maneiras de se salvar das algemas, no meio do nada, conversando com as vozes em sua cabeça e às voltas com um ser misterioso e um cachorro faminto, que começa a comer o cadáver do marido e ameaça experimentar sua própria carne, mais fresca e, por isso, mais suculenta.

Por esse breve resumo já dá para perceber que estamos no mesmo território de "Hush": a moça isolada numa casa distante, a ameaça de fora (aqui, bipartida: o cachorro, o homem misterioso), as vozes internas (também numa bipartição, meio fantasma meio consciência), e sobretudo o estabelecimento antecipado do conflito e a necessidade de trabalhar a duração para o resto da narrativa.

Para ultrapassar esse último obstáculo, Flanagan recorre a flashbacks que, estivessem ou não no livro, não funcionam muito bem no filme. Eles criam um trauma de infância que pode explicar as dificuldades do casal na cama, mas talvez essa explicação torne a trama óbvia demais nesse aspecto. O jogo das algemas, se permanecesse mais misterioso, talvez ajudasse melhor no clima.

Explicações surgem no final também, mas estas ajudam a situar o espectador numa trama onírica e poética, em que não sabemos ao certo o quanto do que se narra é real. Graças a elas o filme termina com saldo positivo, como é comum na carreira de Flanagan.

* Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema

 

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