O Estagiário

Filme com De Niro e Hathaway pode adocicar um pouco a quarentena

Sergio Alpendre, editado por Liliane Nakagawa 07/04/2020 19h30
O Estagiário
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"Um Senhor Estagiário", que a Netflix rebatizou como "O Estagiário", está no Top 10 dos mais vistos no Brasil. É, contudo, um filme de 2015, o que o faz ser um pouco velho para os padrões do usuário típico.


Essa presença nos impõe duas questões, ambas fáceis de serem respondidas, mas nem por isso menos valiosas em suas formulações: a) por que esse filme em especial está entre os mais vistos; b) por que um astro como Robert De Niro se mete em filmes comerciais como esse?

À primeira pergunta respondemos com uma constatação óbvia: em tempos trágicos nunca antes vistos por qualquer pessoa que não tenha idade o suficiente para ter sido contemporânea do surto de febre espanhola, é mais do que necessário um alívio, uma distração que permita duas horas de esquecimento do mundo atual.

À segunda, respondemos com a lembrança de que há muito tempo De Niro procura filmes leves, nos quais possa desfilar seu carisma para uma plateia mais ampla, deixando os arroubos mais artísticos para trabalhos cada vez mais raros, como "O Irlandês" (2019), sua retomada de parceria com Scorsese após "Cassino" (1995).

E "O Estagiário" tem tudo para agradar um público amplo, sendo plenamente esquecível duas horas depois (até que dura bastante, tem filme que já esquecemos durante os letreiros finais): é totalmente conciliador, os problemas que mostra são facilmente solucionáveis, até mesmo aqueles que pareciam sem solução; tem dois atores que são praticamente à prova de rejeição, Anne Hathaway, num papel que parece um prolongamento da personagem de "O Diabo Veste Prada", que agora se tornou bem sucedida, mas não pretende ser a megera que era Meryl Streep, e Robert De Niro, que faz um senhor charmoso e certinho de 70 anos que aceita um novo desafio na vida, voltar ao mercado de trabalho.

Na história, Hathaway é Jules Ostin, fundadora de uma start up que se encontra em vertiginosa expansão. Trabalha tanto que mal tem tempo para a filha e o marido Matt (Anders Holm). Por meio de um programa que ela aprovou, mas não lembra de ter aprovado, a empresa abre um programa para estagiários seniors, e Ben Whitaker (De Niro), um aposentado viúvo, resolve se inscrever para ter um desafio na vida tranquila e monótona que leva. Ao mesmo tempo, os investidores da empresa querem um CEO, por medo que o excesso de trabalho possa prejudicar esse crescimento. Mas Jules não quer alguém que pode tirar o encanto da marca que criou.

Há então dois componentes interessantes no filme, que são contrários à sanha atual da juventude arrivista: a ideia de que um senhor de 70 anos pode ser fundamental para o bom funcionamento de uma empresa que não explora seus funcionários; a ideia da paixão que envolve o trabalho, paixão sem a qual o fazer se torna mecânico, sem significado algum a não ser o da acumulação de bens.

O filme começa com uma trilha insuportável, que já ouvimos em cerca de mil filmes da hollywoodianos, de modo que fica um pouco constrangedor se apoiar numa trilha genérica dessas. Mas a direção de Nancy Meyers é aquele feijão com arroz que ajuda quando queremos justamente um divertimento esquecível. Ela sabe que com De Niro e Hathaway o jogo está ganho, e o roteiro que escreveu é cheio de ganchos para capturar o espectador.

Esquecível, sem dúvida, mas agradável de se ver. É mais do que podemos dizer da maior parte desse tipo de filme em que "todos têm suas razões, mas todos se entendem e tudo só pode terminar bem".

* Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema

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