Tim Cook, CEO da Apple

Tim Cook acha que as pessoas devem diminuir o tempo que passam em seus iPhones

Redação Olhar Digital 24/04/2019 16h04
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A afirmação é certamente interessante - e contraditória - já que a Apple projetou um sistema que permitia aos desenvolvedores de apps notificar constantemente seus usuários sobre as coisas mais fúteis

O CEO da Apple, falando no TIME 100 Summit nesta terça-feira (23/4), estava discutindo a natureza viciante de nossos dispositivos móveis e o papel da Apple no segmento. Ele disse que a empresa não pretendia que as pessoas usassem seus iPhones constantemente, e admitiu ter silenciado suas notificações nos últimos meses. “A Apple nunca quis maximizar o tempo do usuário. Nós nunca falamos sobre isso”.


A afirmação é certamente interessante - e contraditória - já que a Apple projetou um sistema que permitia aos desenvolvedores de aplicativos notificar constantemente seus usuários sobre as coisas mais fúteis — desde um novo seguidor em uma rede social, uma venda em um aplicativo de compras ou até um novo nível adicionado a um jogo.

A ideia por trás das “notificações” é que seus desenvolvedores devem — em tempo real — tentar capturar a atenção dos usuários e redirecioná-los de volta para seus apps.

A plataforma de notificação de aplicativos poderia ter sido criada para permitir que os desenvolvedores alertassem usuários em lotes, em intervalos planejados, dentro de um controle personalizado. Por exemplo, você poderia definir que, diariamente, ao meio-dia, gostaria de verificar as “novidades” em suas redes sociais — e não a cada vez que alguém interage com você.

Ou, ao criar a iOS App Store, a Apple poderia ter implementado um "feed de notícias":  um canal dedicado no qual os usuários poderiam optar por verificar as últimas notícias de seus aplicativos instalados.

Ou, talvez, a Apple pudesse ter estruturado uma plataforma de notificação que permitisse aos usuários escolher entre diferentes classes personalizadas das mesmas. Mensagens urgentes — alertas sobre uma violação de segurança — ficariam em primeiro plano. Já as informações gerais seriam enviadas com um tipo diferente de notificação. Poderíamos ter o poder de selecionar tipos de alertas, dependendo da importância do aplicativo para cada um de nós. Estas são apenas algumas possibilidades — que não foram implementadas pela Apple desde o crescimento da economia baseada em apps. 

Fato é que as notificações por push foram pensadas para aumentar o engajamento, simples assim. Criou-se uma situação em que os usuários precisavam recorrer à única defesa que lhes restava: desligar totalmente esse tipo de alerta. Hoje, muitos as desabilitam totalmente ao instalar novos aplicativos. 

Só agora, com as novas ferramentas da Apple para controlar as notificações, os usuários estão fazendo uma triagem mais ativa sobre quais aplicativos podem entrar em contato. "Se você tem um iPhone e não está fazendo isso, eu o encorajo a realmente fazê-lo, controle-as", sugeriu Cook para o público. “ Eu realmente preciso receber milhares de notificações por dia? Não é algo que agrega valor à minha vida, ou está me tornando uma pessoa melhor. Então cortei.”

O comentário, é claro, deveria ser uma referência velada à natureza viciante de alguns aplicativos — mídias sociais em particular, e especialmente o Facebook. A relação das duas empresas está meio estremecida, principalmente após constantes escândalos causados por violações de privacidade de dados.

Porém se lançarmos um olhar mais crítico ao passado, perceberemos que o aplicativo do Facebook — e todas as suas muitas notificações — eram um grande ponto de vendas para o dispositivo móvel da Apple.

Reprodução

Quando a App Store foi lançada pela primeira vez em 2008, o Facebook se sentou orgulhosamente na primeira fila em uma posição de destaque. Ele foi fortemente promovido aos usuários porque era um excelente exemplo da utilidade do iPhone: aqui está essa popular rede social que você poderia agora acessar do seu telefone. Surpreendente! 

O Facebook e os demais apps aproveitaram o iOS para melhorar seu próprio negócio sem levar em conta como isso afetaria os usuários. Essa culpa não pode recair apenas sobre os desenvolvedores. A própria plataforma de notificação deixou a porta aberta para esse tipo de abuso, já que não havia controles configuráveis pelo usuário.

Uma década depois do lançamento da App Store, a companhia decidiu se importar com o tema. Na WWDC do ano passado, foram anunciados serviços de bem-estar. Eles incluíram um painel com o tempo de tela (para rastreamento de uso); aumento dos controles parentais; e, finalmente, uma maneira de silenciar a enxurrada de notificações, sem precisar cavar nas configurações do iOS.

Reprodução

"Toda vez que você pega seu telefone, significa que você deixa de dar atenção a pessoa que você está falando naquele momento, certo?", continuou Cook. "E se você está olhando para o seu telefone mais do que você está olhando para os olhos de outra pessoa, você está fazendo a coisa errada", disse ele. “Queremos educar as pessoas sobre o que elas estão fazendo. Essa coisa vai melhorar com o tempo, assim como tudo o que fazemos. Nós vamos inovar como fizemos em outras áreas". E completou “não queremos que as pessoas usem seus telefones o tempo todo. Isso nunca foi um objetivo para nós”.

Exceto, claro, por aqueles 10 anos em que foi.


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